04
Jan 07
Existirá sempre uma questão essencial no meio disto tudo, porque razão as pessoas deixam de cuidar das coisas? Do seu corpo, das suas relações, com o passar dos anos, a frieza que a maioria das ligações toma é quase tão certa como as varizes nas pernas das mulheres, ou a barriga arredondada e proeminente que os homens adquirem.
Será então desta forma o tempo o culpado, ou acusamos a imperfeição humana que não sabe tirar prazer às coisas que acontecem mais do que uma vez, ou constantemente na nossa vida. Ás vezes apetece-me acordar esta gente com um grito, ou com uma bomba de gás pimenta, sim eu sei, vão arder os olhos, vão surgir lágrimas, mas depois o fumo vai sumir-se e aí vão ver…as pessoas que se preocupam certamente vão estar do seu lado, a rogar para que nada de mal lhe tenha acontecido, para que o mal não permaneça, dizendo com uma voz calma e melodiosa, “já passou, vai ficar tudo bem”.
É ao olhar estes personagens na noite que me perco em pensamentos, e que perco o meu tempo, e o tempo dos que comigo hoje vêem pelos meus olhos, sentem nas minhas palavras, as interrogações que transporto.
Desconcentro-me por segundos dos meus álibis preferidos para me fixar na menina do bar, e na sua silhueta movediça, há muito tempo que não era provocado à distancia com tanta facilidade, sinto-me um ratinho embalado pelo cheiro a queijo, e pelos trilhos vou salivando e imaginado tudo aquilo que vou fazer quando chegar ao meu prémio, mas como todos os encantamentos algo irá certamente acontecer, alguém vai gritar no meu ouvido…”Oi miúdo, estás a dormir ou quê? O bar está a fechar, vai lá para fora se quiseres”.
Resta-me a condição de saber que se voltar noutro dia, tenho grandes hipóteses de a ter a servir-me novamente, enchendo-me os copos onde afogo os sentidos, encantando-me os olhos até ficarem perdidos. Enquanto caminho pela areia vejo os casais adolescentes que se aninham nas areias da praia, a forma como fazem as juras, como não têm medo de sentir as coisas, como acreditam que tudo dura para sempre, a ingenuidade é um dom, que a idade tira.
Nunca soubemos estar sozinhos, caminhamos mais tristes quando estamos sós, são poucos os que tendem a ser loucos e escolhem a solidão como uma forma de ocupar o vazio. Desde cedo, ficamos presos a alguém, já nascemos presos a alguém, seja por um mero cordão ou um abraço, os sentimentos provocados pelos outros em nós são sempre mais fortes, mais duradouros, mais marcantes.
Decido então aninhar-me também eu nas areias, com o meu grupo de amigos, a noite é quase tão perfeita como aqueles dias em que acordamos com a luz do sol a tocar no nosso rosto contemplando o novo dia, ou mesmo os dias frios de Inverno, em que chove lá fora, e que nos enroscamos nos cobertores com tanta força que ninguém no mundo nos tiraria dali.
“Vamos ser para sempre amigos não vamos?” deixa escapar a mais frágil das meninas, encantada com o momento, e fazendo já balanços duma noite que está longe do fim. Esta frase fez com que me perdesse no meu cosmo, e levantou mais uma interrogação intrínseca, de que forma é que as amizades duram para sempre? É uma velha questão do tempo e do espaço, tantas vezes me senti bem com um grupo de pessoas, tantas vezes tive vontade de dizer que as amo, tantas vezes tive a certeza que…”podia ser muito feliz convosco”, mas depois por uma ou outra razão me separei…deixei correr o tempo, deixei escorrer a vida.
publicado por JF às 03:48

05
Ago 06

     A noite, cheia de contradições e semblantes mascarados, em pinturas diversas, em sorrisos dispersos, onde os sentidos se vão perdendo. Já olharam a noite, da forma mais pura da sua forma? Quem não se perdeu, numa ou noutra noite, por esses trilhos estreitos, sem ter medo de não saber voltar para trás.
     Sou suspeito para falar da noite, eu divirto-me a olhar a luz da lua reflectida nas coisas, gosto das estrelas, dos candeeiros que iluminam as calçadas, dá-me prazer não saber o que vou encontrar nos becos mais escuros, agrada-me o cheiro da noite, gosto das luzes dos carros que passam depressa, e principalmente dos corpos, preparados para a noite, no seu trajo exclusivo, as pessoas em geral querem ser felizes numa ou noutra noite, produzem-se para a noite, sem ter medo de se perder.
     Nunca tive medo de perder tempo a olhar os outros, sempre aprendi muito com isso, com os gestos, com as atitudes, com o baloiçar dos corpos. Nesta noite a historia é um pouco diferente, e os personagens bem mais complexos, num pequeno bar à beira mar sinto o cheiro a maresia e oiço os sons que a noite me conduz, disperso-me nas luzes que piscam, e no corrupio de pessoas que andam de um lado para o outro, qualquer um destes personagens tinham características suficientes para me prender a atenção, seja o rapaz tímido que se encosta num dos cantos com seu copo, enquanto contempla a silhueta mais roliça do outro lado da pista, ou mesmo a menina do bar, ai a menina do bar, nunca passaram por uma pessoa e pensaram …“eu podia ser muito feliz contigo”, pois bem eu nesta noite, podia ser muito feliz com a menina do bar. Mas até aí nada me tinha chamado demasiado tempo a atenção, até as luzes denunciarem um casal até à vista perfeitamente normal, sentado numa mesa mais distante do meu posto de observação, com os seus cinquenta e poucos anos e trinta e tantos anos de vida conjugal, lá estavam eles, sentados num bar de praia, cultivando o que muitos perdem após a puberdade, o sentido de jovialidade. Só assim consigo explicar a permanência de dois seres num campo inimigo, sim inimigo, toda a gente sabe que onde os filhos passam a noite são locais impróprios à ingenuidade paternal, talvez porque a ideia do filho perfeito de desfaz quando o olham tórpido pelos cantos, com um copo meio vazio, e de olhos semicerrados, sem falar claro, da ideia preconcebida de filha exemplar e estudiosa que na noite é conhecida como “o furacão da margem sul”, se é certo que os nossos olhos só vêem o que querem ver também é uma certeza que olhos que não vêem coração que não sente.
       Ajusto-me mais perto daquele belíssimo exemplar de como são noventa porcento dos casamentos nos dias de hoje, ela de braços cruzados parece preocupada, provavelmente com o almoço familiar de domingo, ou quiçá as compras do mês, enquanto tenta não adormecer, difícil tarefa com estas musicas que os jovem ouvem, entendo o que passam os enviados especiais dos sistemas de informação quando dizem que não conseguiram dormir, com as bombas a cair consecutivamente ali por perto.
       Ele por sua vez acarinha um copo na sua mão direita, enquanto lança os olhos pelos corpos mais despidos das meninas de Bem, que hoje tiveram a amabilidade de trazer seus corpos e de partilharem o seu sentido estético connosco. Engraçado ver que o casal em toda uma noite não toca um olhar, um sorriso, ou mero toque inadvertido, sim é um belo par de jarras sem duvida, mas a questão não é tanto essa, o que me interrogou mesmo nesta noite foi até que ponto não nos transformaremos também nisso, num belo par de jarras, de que forma é que saberemos roubar o tempo sem deixar que ele nos tire o que fomos criando, os amigos, as memórias, as insónias e tudo aquilo que os anos deixam para trás.

continua...

publicado por JF às 15:23

03
Jun 06
- Cala-te tontinho, sabes que te adoro... (murmurou Anya)
- Nunca vais fugir daqui? Perguntou meloso Daniel,
- E deixar-te aí nessa cidade? Livre e solto ao alcance de qualquer uma, nunca (dando-lhe um beijo terno na testa).

O relógio na mesa-de-cabeceira marcava 10 horas, e a musica tinha sido calada bruscamente pela mão de Anya.
A vontade de sair daquela cama não era das maiores, o sol atravessava ao de leve a janela semiaberta, deixando com ele entrar também uma brisa, que arrepiava os corpos. Anya acabava de se cobrir com os lençóis quando Daniel interrompe a sua preguiça…

- Hoje não entravas mais cedo no hospital? Pergunta Daniel
- Hum…deixa-me dormir mais um bocado, cinco minutos, vão ser só cinco minutos…e cai no sono Anya.

Daniel levantou-se cautelosamente para não perturbar o ultimo aconchego da sua mais que tudo, desceu as escadas, abriu o frigorifico, pegou na sua água, bebeu um gole, e encaminhou-se para a janela… do lado de lá, ia observando as crianças a brincar, num jardim…o seu ar, despreocupado com a vida, a forma como não tinham medo de nada, via as mães babadas cegas de amor pelos seus rebentos, que sorriam só porque sim, em cada gesto, em cada brincadeira mais ingénua…Daniel deixou escapar um sorriso e voltou a por a água no frigorifico.
Ao fechar a porta um estrondo vinha do seu quarto, uma espécie de vidro a partir, algo imperceptível que o levou a correr lá a cima…
Ao chegar Anya não se encontrava na cama, viu a casa de banho…nada, Daniel era agora uma espécie de barata tonta perdida numa caixa de fósforos, a sensação que tinha perdido algo, e que tinha acontecido qualquer coisa era agora perturbadora, a sua cabeça entrara nas mil ideias por segundo.
Mais um som estranho vinha da sua sala, um vidro a partir pareceu-lhe…correu para baixo e viu uns vidros no chão…a sua manhã tinha começado com adrenalina a mais, Daniel começava a perder o controlo da situação e do seu corpo que começara a tremer compulsivamente. Lá de fora não vinha som algum, os miúdos pareciam ter desaparecido, o mundo mudou rápido de mais, quando por detrás do seu corpo surge um vulto que lhe venda os olhos com as suas mãos…

- Andas à minha procura? (deixou fugir com um riso)

Era Anya, com o seu jeito doce de ser imprevisível, e perfeita nestes momentos mais perdidos de Daniel.

- O que é que se passou lá em cima? Pensei que tinha acontecido alguma coisa, subi e não te vi na cama, comecei a ficar ansioso…diz ainda não muito recomposto Daniel.
- Foi o candeeiro que caiu, mas não te preocupes que o levei logo para o escritório, depois trato disso.
- E aqui em baixo? O que é que partiste? (diz com um tom irónico Daniel)
- Aqui não parti nada, foram uns miúdos que atiraram uma bola contra a porta…nada de mais.


Daniel teve então tempo para descansar a mente, e abraçá-la, deu-lhe um beijo e disse-lhe no ouvido…

- Estou a ficar maluco, acho que não consigo viver sem ti…
- Achas?! Ai não tens a certeza é? Pois eu digo-te, não consegues, não sabes, nem tal vai acontecer ok? Tolinho.

Os dias seguintes foram pequenas réplicas desse mesmo dia, a cama, os abraços…a amanhecer apaixonado de sempre, o cheiro dos corpos no nascer dos novos dias.

Vivíamos problemas graves a nível estrutural da sociedade, mas não apenas neste pequeno país à beira mar plantado, o mundo andava louco, a falta de petróleo assolava os países que outrora foram ricos e que agora estavam prestes a apanhar o comboio de todos os outros, o comboio de destino ao terceiro mundo.
As ruas estreitas das cidades mostravam o quão cinzento estava este novo século, sem abrigo lutavam por um espaço mais perto das pontes, e nas caras das gentes pouco mais existia do que o lamento…a dor.
Daniel e Anya eram privilegiados de uma sociedade afundada, Anya era enfermeira num dos hospitais que ainda funcionava e Daniel era fotografo de um jornal, que muito embora pouco pagasse, tinha em grande consideração e estima aquele jovem, que aproveitava todos os momentos para pegar na sua objectiva, e imortalizar os momentos.

As fronteiras dos países europeus tinham-se fechado, a peste assolava a Europa de leste, e o HIV já tinha morto metade da população africana e sul americana, em Portugal o clima era de alguma consternação, no entanto o povo continuava nas ruas, com força para lutar, as crianças brincavam nos jardins, as bandeiras bailavam nas janelas.
As noticias de Domingo à noite mudaram tudo, estávamos em alerta vermelho, uma nova doença tinha penetrado os corpos dos nossos, um vírus poderoso propagava-se pelo sangue, e o contagio era fácil de mais, devido às condições precárias em que o povo vivia.


- Não voltas para aquele hospital, amanhã não vais trabalhar, ordenou preocupado Daniel.
- E achas que se ficarmos aqui fechados nesta casa fugimos dos problemas, podemos fazer com que esperem, mas estarão ali, ao cruzar a porta. Esta é a minha profissão, eu ajudo pessoas, e não vou agora ficar fechada em casa porque uma merda de uma notícia te deixou com medo. (respondeu irritada Anya)
- Isto ainda vai dar mau resultado, amanha vão cair milhares de pessoas no teu hospital, podes perfeitamente apanhar aquela coisa.
- eu sei tomar conta de mim…

A noite foi fria, para ambos, de costas voltadas na cama, Daniel passara a noite em branco, de olhos abertos via as horas passar, do extremo oposto, Anya fazia exactamente a mesma coisa, sem nunca darem o braço a torcer viram assim passar, o que fora uma das suas ultimas noites…

Daniel acabou por adormecer e quando abriu os olhos Anya já tinha saído, levantou-se, desceu as escadas, e um papel colado na porta do frigorífico fez apagar a réstia de raiva que ainda guardara da noite anterior…

“ Amo-te, não te vou deixar sozinho, eu volto, prometo”

Os seus olhos embargados em lágrimas fecharam-se, encostou a cabeça ao frigorífico e beijou o papel que continha aquela mensagem, de certa maneira ele acreditava, mas algo mais foste do que o crer, fazia sentir que algo não estava bem.

Mais tarde, Anya voltava a casa como prometido, deu um beijo a Daniel, mas seus olhos deixaram fugir que algo não estava bem…

- O que se passou? Não faças muitos rodeios e diz logo! (disse Daniel incomodado com aquele olhar triste)
- Tinhas razão…
- No quê?
- O vírus é a sério, e está a atingir grandes proporções
- Eu disse-te, eu sabia, porque é que nunca ouves o que digo? Ao menos despediste-te?
- Não
- Mas amanhã não vais…eu não te deixo sair daqui, nem que te feche aqui dentro (disse agarrando a mão de Anya o sufocado Daniel).
- Tenho de ir…já descobriram a cura!
- Ao menos isso, até é de estranhar o país resolver a situação tão rápido. Qual é a cura?
- A cura está no sangue, é a junção de uma pequena vitamina com o sangue (O-)
- Isso não é o teu tipo de sangue?
- É
- Não me digas que vais ter de dar sangue ainda por cima, tens de ir lá amanha?
- O meu tipo de sangue é raro, é o tipo (O) é o único que pode ser introduzido nos outros, e apenas o (O-) é que serve como cura, em junção com a vitamina.
- E vão tirar muito?
- Todo!

Gera-se uns segundos de silencio, as mãos de Anya frias deixavam-se acarinhar pelas de Daniel, por sua vez o fotografo tinha falhado o enquadramento, não percebia o que Anya lhe dizia…

- Mas espera aí, todo como?
- Todo, só existe uma centena de pessoas com o meu tipo de sangue, e as fronteiras estão fechadas, não podemos pedir ajuda a ninguém. Vamos ser sacrificados.
- Vais passar os dias no hospital a tirar sangue é isso? Mas já estão assim tantas pessoas infectadas?
- Três milhões de pessoas, e vou sucumbir à primeira hora que me tirarem sangue.
- Sucumbir?
- Vão tirar-nos o sangue todo, só assim podemos tratar das pessoas já infectadas e ficar com alguns antídotos em banco.

Daniel estava meio pasmo com a história, e não se tinha apercebido da gravidade da situação, não entendia, nem queria entender o que Anya queria dizer…

- Preciso de beber água, ainda não entendi nada disto…

Levantou-se, foi até ao seu frigorífico, pegou na garrafa e deu um gole…enquanto isso olhou para o papel que ainda estava na porta.

“ Amo-te, não te vou deixar sozinho, eu volto, prometo”

Guardou de novo a água, fechou a porta, Anya levantou-se e veio ao encontro de Daniel, olharam nos olhos um do outro, ficaram quietos por momentos…até que Daniel percebeu por fim, abraçaram-se, e entre choro e arrependimentos ajoelham-se no chão…

- Não pode ser, tem de haver outra maneira, não deixo, não deixo que eles te levem…
- Tem de ser, é a única maneira, ou mais tarde morrerás também, tu e todos, alguém tem de ser sacrificado.
- E tinhas de ser tu?
- Não sou só eu, e eu não escolhi.
- Tu prometes-te que não me deixavas…tu prometes-te.
- E não deixo, vou estar sempre contigo, quando respirares, quando sentires o sol a entrar na nossa janela, quando sentires o frio, quando sentires que estás…vivo.

Os momentos seguintes foram de autentico terror, pânico, desconforto, uma mistura estranha de sensações também elas extremas, por um lado Anya não parecia querer mudar de ideias, estava disposta a tudo, para salvar gente que nem conhecia, por outro Daniel, por ele podiam morrer todos até ele próprio, mas a sua Anya…

- Por favor não a leves… Ela não, não pode ser… (dizia agarrado a uma pequena cruz)

A noite chegou, e as ultimas horas foram o que se pode chamar a despedida, choravam enquanto se beijavam, sofriam enquanto se tocavam, e um simples “Amo-te” era doloroso como mil lâminas a trespassar o corpo, os gritos e gemidos eram de prazer, de dor, de sensações melindrosas, entre lume e queixume, entre o céu e o inferno, entre a vida e a morte.

Com o nascer do dia Daniel acerca-se da janela, de onde vê partir Anya num carro negro, tinham-na ido buscar a casa, creio que fizeram exactamente o mesmo com os outros dadores compatíveis. A última imagem é a de um beijo, entre janelas, entre a janela de sua casa e a janela que se fechava como sinal de adeus, do carro.

Daniel saiu de casa, sentou-se no banco de jardim, e daí observou novamente as crianças, ingénuas no seu posto, nada lhes impõe tristeza, nem preocupação, tudo é…perfeito.
Foi então a ver os sorrisos daqueles pequenos seres que Daniel entendeu o porquê…entendeu que tinha de ser assim, e que Anya apenas fez o seu papel, como única que sempre foi, salvou quem tinha de salvar. (uma lágrima e depois um sorriso final)

A porta do frigorifico abre-se, uma garrafa é colocada no seu interior, vê-se a porta a fechar e uma fotografia dos dois, com o recado por baixo.

“ Amo-te, não te vou deixar sozinho, eu volto, prometo”

(a vida é apenas um momento, em que unimos as coisas que vamos guardando, vamos ser sempre dois, eu e tu, vou lembrar-me sempre de ti quando respirar, quando sentir o sol entrar na nossa janela, quando sentir o frio, e a dor, quando sentir que estou vivo… vamos ser sempre dois, eu e tu)
publicado por JF às 23:45

23
Abr 06
Numa paragem de autocarro um jovem vai escrevendo o que lhe vai na alma, observa atento aos movimentos das pessoas, os hábitos das criaturas, as formas como deambulam pela cidade…e escreve no seu livro…
 
                        “Nunca soubemos estar sozinhos, caminhamos mais tristes quando estamos sozinhos, são poucos os que tendem a ser loucos e escolhem a solidão como uma forma de ocupar o vazio. Desde cedo, ficamos presos a alguém, já nascemos presos a alguém, seja por um mero cordão ou um abraço, os sentimentos provocados pelos outros em nós são sempre mais fortes e indescritíveis…”
 
            A paragem tinha algumas cadeiras e estavam todas ocupadas, menos a do lado esquerdo do Ruben, jovem introspectivo e dedicado aos prazeres da observação e da escrita. Uma jovem senta-se nessa cadeira que até à hora se mantivera livre…
            Os transportes vão chegando e vão passando em passos largos os vultos que fazem de figurantes a esta história, ficam apenas os dois, sozinhos nos bancos da paragem, e embora estivessem espaço nenhum deles arredava pé do seu assento…
            A situação por si só caricata dava azo a alguns risos envergonhados por parte das duas bocas.
            Olham um para o outro…desviam o olhar, e voltam a cruza-lo, deixam finalmente escapar o sorriso contido que teimava em não se mostrar.
 
            - Parece que o mundo desapareceu e só ficámos nós…
            - Pois realmente, só nós é que temos tempo para esperar, chamo-me Ruben…
            - Muito prazer sou a Íris.
 
(fica então um silencio meio perturbador entre os dois, nenhum tinha um “desbloqueador” adequado para a situação, afinal eram apenas dois estranhos…
 
            - Que estás a escrever? Perguntou a pequena Íris
            - São coisas minhas, responde o Ruben e fecha o livro, queres ir andar por ai? E ver como está a noite?
            - Sim porque não, vamos, não estou com paciência para esperar…
 
            Caminham pela cidade, submersa na noite, vão falando de banalidades e vão-se conhecendo, param à porta de um Hotel e Íris faz-lhe um convite…
            - Queres subir? O dono é meu amigo, os quartos têm uma vista linda
 
Ruben não sabia bem o que fazer, mas a verdade é que a companhia estava bastante agradável, após pensar uns segundos resolver aceitar e subiu…
 
Antes de entrar no quarto Íris encosta Ruben à porta e começa a beijá-lo, a tocar-lhe a tomar posse do que Ruben julgava ser seu, mas que por estranho que parasse-se naquela noite fora de outra pessoa, de Íris, que fez do seu corpo um navio e deixou-se levar pelas ondas da noite…
No dia seguinte pela manhã Íris acorda Ruben com um beijo angelical e deixa correr um bom dia…
 
- Bom dia, flor do dia…
- Olá, pensei que tinha sonhado, mas afinal foi mesmo verdade, disse o ensonado Ruben, espreguiçando-se e deixando rolar os braços abraçando Íris.
- Temos tempo para o pequeno-almoço? Perguntou Ruben
- Tenho de continuar a trabalhar lindo, tu ontem foste excepção, passei toda a noite contigo, agora tenho de voltar…por falar nisso, são 130€
- Desculpa? Como assim?
- São 130€ ou esperavas que fosse de borla, temos de fazer pela vida bebé…
- Ruben estarreceu de imediato, para onde é que tinha ido a mulher com a qual se deitara na noite anterior…certamente não estava mais ali.
 
(Ruben não tinha dinheiro consigo, mas o seu relógio de marca deveria render cerca desse preço)
 
- Só tenho este relógio comigo…serve?
- Sim serve, é giro, pode ser, mas só desta vez, da próxima já sabes, dinheiro vivo!
 
            Ruben deixou-se novamente deambular pelas ruas claras da cidade, perguntava-se como tinha sido tão parvo, mas a verdade é que aquela noite continuava a complicar-lhe as ideias.
 
            Cinco dias mais tarde Ruben passa pela mesma paragem e volta a cruzar sorrisos com a bela Íris, volta a sentir-se atraído e volta a passar umas horas na sua companhia…
 
            - Qual é o valor para passar a vida inteira contigo? Perguntou Ruben
Íris sorri, faz-se uma festa no rosto e responde...
            - Talvez mil relógios daqueles!
 
 Desta vez Ruben deixou o mp3.
 
            Dias passados Íris volta a encontrar Ruben…
 
            - Hoje tenho dinheiro…estás livre?
Íris parecia abatida e triste, aparentava ter estado a chorar…
            - Não Ruben, hoje não
            - O que é que se passa, estives-te a chorar?
            - Venho agora do médico, o meu teste de HIV deu positivo…
Um silêncio fúnebre abraçou então os dois, Ruben não sabia bem o que fazer, embora tivessem sempre usado protecção nestas situações tudo se põe em causa…
 
- Está descansado, eu confirmo sempre se os preservativos rebentam…os que usamos nunca rebentaram.
 
Íris virou as costas e foi-se embora, Ruben encosta-se á parede senta-se no chão e põe as mãos sobre a cabeça…
 
Numa das noites em que vagueava pela cidade Ruben encontra Íris encostada a uma parede, em lágrimas, e completamente perdida, sentiu um misto de amor, pena, fracasso e talvez frustração e abraço-a com força…
 
            - Esta dor é forte de mais, a cruz é demasiado pesada para a conseguir transportar por muito tempo, hoje avisei a minha família, e meteram-me fora de casa…
 
            Ruben deita-a no seu colo, acaricia-lhe os cabelos, e faz com que adormeça…em seguida pegou-a ao colo e levou-a para sua casa que era ali perto.
            Deitou-a na sua cama e deu-lhe um pequeno beijo no pescoço que a fez estremecer novamente...ao de leve surpreendeu-a soltando os botões da camisa que Íris trazia…
 
            - Pára, eu não quero, não vou por ninguém em risco, muito menos tu
            - Mas eu quero-te, e quero-te como se fosse hoje a nossa primeira vez, quero-te sem subterfúgios e sem protecções…
            - Tu és louco? Qual é a parte da frase “eu sou seropositiva” que tu não percebes? Tu queres morrer como eu?
            - Vou ter de morrer um dia…que seja por um bom motivo.
            - HIV é um bom motivo?
            - Não, mas carregar contigo esta dor, estar ao teu lado e sofrer a tua mágoa, sentir o que sentes, e lutar contigo é o melhor que posso pedir à vida e à morte
            - Não posso deixar que isso aconteça…
            - Eu amo-te, deixa ser este o nosso pecado…
Íris deixa-se por fim levar…
 
 
            “ Viver com medo de lutar nunca foi viver, é ser refém das horas, fugir dos males dos outros como se estes não fossem também os nossos, nunca foi o mais certo, olhar de lado os que têm um mal nas suas veias não é mais do que uma mera ignorância, e como é inculto o meu povo, a idade é o maior peso que podemos trazer ás costas, faz-nos perder…inocência tenho pena desta gente, apressada no seu passo, que tem medo de tudo, e acaba por não viver…nada”
publicado por JF às 14:02

19
Abr 06
Dois homens numa sala de reuniões encontram-se, um clima tenso e de decisão paira no ar, ambos observam-se um ao outro…após alguns segundos um deles quebra o gelo…
 
            - Pois é pois é, o seu currículo não é nada famoso, não tem experiência, é o primeiro emprego?
            - Sim é…
            - E conhecimento de línguas tem?
            - Percebo um pouco de inglês, mas pouco.
            - Isso é que é pior, sabe que nesta empresa queremos profissionais qualificados, que conheçam pelo menos três línguas…
            - Pois em compreendo, notei que é uma grande multinacional, mas esteja descansado que sou um óptimo profissional…
            - Não digo que não, mas este currículo parece-me muito fraquinho, conhece alguém? Quem é que o mandou cá vir?
            - Bem, eu não conheço aqui ninguém, fui ao site da vossa empresa e após descobrir a morada resolvi vir cá, tentar a sorte, sabe como isto está difícil…
            - E se está, aquilo lá fora está um inferno, o desemprego a aumentar, cada vez menos gente qualificada, e com mérito sabe, o problema é que cada vez mais gente chega ao topo ás costas de alguém…é o factor C.
            - Essa é que é essa, as cunhas salvam muita gente, o pior é que eu conheço pouca gente, nunca fui muito de interesses…
            - Um homem sério…faz bem, faz muito bem...mas este seu currículo…deixa muito a desejar sabe…e informática tem conhecimentos?
            - Sim mexo em computadores desde miúdo, domino a coisa…
            - Mas e curso de informática tem?
            - Não tirei nenhum curso mas sei mexer em computadores, até sou eu que costumo arranjar as máquinas aos meus amigos, software, hardware eu percebo…
            - Compreendo…mas se não tem curso, não sabe, isto é muito simples, quem tem canudo sabe, quem não tem…não sabe
 (o jovem baixa os olhos e confirma)
            - Pois…
            - Então e carta de condução? Tem carta?
            - Não senhor, nunca gostei muito dos carros, prefiro andar de comboio e outros transportes…
            - Bom, também não tem nada, não posso fazer milagres sabe…
            - pois...
(entretanto o presidente vira a ultima pagina e pergunta)
 
            - E filiação partidária tem?
            - Sim sou militante do PRPD
( o presidente olha para ele de cima a baixo…abanando a cabeça com um sorriso na cara e diz)
            - Ah muito bem…olhe gostei muito do seu currículo, vinha para que vaga?
            - Bem eu tenho o curso de recursos humanos…
            - Não diga mais, vai começar já amanha como chefe de departamento dos recursos humanos da empresa…
            - Muito obrigado, ainda bem, nem sei como lhe agradecer…
            - Nada disso camarada, venha de lá esses ossos, e dão um abraço
 
( o rapaz sai da sala e o presidente liga para a secretária…)
 
- Dona Sara, chame-me o Joel dos recursos humanos…
(o Joel vai até á sala e bate duas vezes)
- Entre Joel
- Tudo bem chefe…
- Tudo, quer dizer quase tudo, olhe Joel temos um problemazinho, chegou até mim um currículo muito interessante e sabe como é, eu gosto de ter sangue novo na empresa e tal…
- Sim, já sei, quer que meta o seu amigo num dos departamentos onde se faz pouco…
- Não é bem Joel…ele vai para o teu lugar…
- Como? Para o meu lugar?
- Sim Joel estas despedido…
- Mas…mas, eu tenho o melhor currículo desta empresa, falo mais de cinco línguas tive a melhor media no meu ano, sou das pessoas mais correctas que tem aqui dentro e vim referenciado pelas melhores empresas onde estagiei.
- Pois Joel compreendo, mas a minha decisão é a minha decisão entende...
- É por eu ser Preto não é? Nunca me viu com bons olhos por aqui…
- Nada disso Joel, tu foste um óptimo elemento desta grande equipa, fizeste muito por nós, e sabes que a cor é-me indiferente, até podias ser chinês que não fazia diferença
- É por eu ser preto, eu sei que é, pensa que eu não oiço as piadas nos corredores, os risinhos nos jantares da empresa, essa história do todos iguais não é para todos...
- Ó Joel eu já não posso fazer nada, está despedido e pronto, e já lhe disse, não tenho problemas com negros.
- O senhor vai arrepender-se, vou fazer queixa de si e levar o caso até ás mais altas instancias…
(o presidente perde a paciência abre uma das gavetas, tira uma arma e atira no Joel que cai inanimado no chão)
- fodax cabrão do preto hã, que merda…sujou-me o chão do escritório…
( pega no telefone e volta a chamar a secretária)
- Ò Sara peça a alguém das limpezas que venha cá acima limpar-me aqui o tapete…
- Então deixou cair alguma coisa?
- Não sara tive de matar o preto…
(alguns segundos de silencio….)
- Então mas…mas e agora?
- Não se preocupe Sara já tinha contratado outro para o seu lugar…
- Há então tudo bem, a senhora da limpeza vem já!
 
Mais tarde nas noticias….
                                                              “Um homem de raça negra foi hoje pelas 17h encontrado morto na praia da ribeira, desconhecem-se as causas, mas tudo indica para uma rixa particular, as autoridades indiciam mesmo que o cidadão de nome Joel, era um dos elementos de um gang que costumava assaltar as bombas de gasolina da zona”
                                                             
publicado por JF às 00:16

14
Abr 06
Foi numa noite como tantas outras, que tudo aconteceu…
 
     Eram cerca das duas da manha, lá estava o Pedro a conduzir o seu carro, rompendo aquela escuridão, a estrada mal se via, e não fosse estar tão atento, tinha passado por cima de um corpo estático que se encontrava no meio da estrada.
     Teve de fazer uma enorme travagem, por momentos temeu que não conseguisse, mas parou a cerca de dois palmos daquele corpo.
     Era uma jovem, aparentava ser jovem, de cabelos longos negros, olhos claros, com uma corrente na mão direita e de batina branca, estava no meio da via, apenas iluminada pelas luzes do seu carro, hesitou em sair do automóvel, ouvem-se tantas histórias por aí, assaltos, mortes, tanta coisa que os mitos urbanos nos fazem chegar às caixas de e-mail.
     Sinceramente a miúda parecia-lhe inofensiva, tinha certamente mais cara de anjo do que de demónio. Saiu do carro devagar, e tocou naquele vulto estático que se encontrava na frente do seu carro.
 
     - Estás bem? Se viesse mais distraído tinha-te passado por cima
 
     Teoricamente seria de esperar uma resposta, mas daquela boca nenhuma palavra saiu, nem palavra, nem gesto, nem nada que se parecesse.
     Abanou-a um pouco, tentando perceber se tinha pulsação, mas…
 
     - Mas olha lá….estiveste dentro de água ou assim? Estás fria…
 
Se não fosse tão céptico diria que ela estava morta, mas a sua formação em medicina levava-o a crer sempre em explicações lógicas e onde a ciência explicaria tudo.
 
     - Deves estar em hipotermia ou em choque, a pulsação deve estar tão baixa que não a consigo sentir, e por isso é que não me respondes, teoricamente nem me deves estar nem a ouvir.
 
     Agarrou-lhe no braço e meteu-a dentro do carro, negligencia do jovem certamente, deveria ter telefonado para o 112, mas por que raio iria ele chamar um médico, se ele era médico.
     Sentou-a no banco do pendura e tapou-a com uns cobertores que trazia no porta-bagagem, e continuou caminho até casa…o clima estava tenso e Pedro tentou interagir…
 
     - Estás a sentir-te melhor? Mais quentinha de certeza, hã? Vou levar-te para minha casa, tenho lá o material necessário para perceber o que se passou contigo. Que me dizes? E que tal começares pelo teu nome?
     Eu sou o Dr. Pedro Morais, sou médico de clínica geral, espero que entendas que estás em boas mãos.
 
     Sinceramente Pedro começava a ficar assustado, estava a começar a ficar macabra a situação, coisa de bruxas ou algo do género. A noite continuava cerrada, e aquele silêncio estava a deixa-lo doido. Não conseguia tirar os olhos do espelho retrovisor, que estava apontado àquela carinha de anjo.
     Resolveu numa tentativa de “descongelar” a situação ligar o rádio, mas por incrível que pareça, não conseguia sintonizar nenhuma estação, ruídos e mais ruídos parecia que estava no fim do mundo.
     Quilómetros à frente acabou por chegar a sua casa, encostou o carro e encaminhou a jovem de poucas palavras para o seu gabinete, o telefone da sala tinha começado a tocar, deixou a porta entreaberta e foi atender.
 
     - Tou? Quem fala?
     - Pedro? Sou eu pá, o César..
     - Ah sim, tou-te a ouvir mal meu amigo, então como é que isso vai?
     - Nada famoso, aliás, tenho uma péssima notícia…
     - Ui, então, o que é que se passa? Acabas-te com a tal Madalena…mas vocês só andam à 3 dias. Nem me deste tempo de a conhecer…
     - A Madalena morreu…
     - O quê? Como assim, mas morreu como?
     - Sinceramente nem te sei explicar bem, ainda nem acredito, esta noite eu fiz uma estupidez, era para ser uma brincadeira…
     - Ó César…tu mataste-a?
     - Fodax Pedro eu gostava dela, não foi isso, eu hoje à tarde fui a uma sessão espírita na casa de uma amiga da minha irmã, era importante eu assistir a uma coisa dessas para acabar a minha tese para a tal reportagem dos espíritos. E a certa altura eu perguntei à coordenadora daquela coisa para invocar algo, um espírito ou assim, e a vidente invocou o espírito da Sara…(fica um silencio pesado entre os dois)
     - Mas espera lá, tu acreditas mesmo nessa merda? Obvio que ela te inventou isso.
     - Era ela Pedro, disse-me que eu era culpado da morte dela, nunca deveria ter publicado a história que ela me tinha contado, e que a minha culpa ia agora virar o meu pior pesadelo, disse que iria perder todos os que me rodeavam...
     - Por amor de Deus César, tu nem pareces um jornalista porra, toda a gente sabe como são esses caloteiros dos videntes, mas ainda não entendi o que é que a tal Madalena tem a ver com isso…
     - Pois, poucas horas depois ligavam-me da polícia, a Madalena tinha sido encontrada nessa estrada que faz a ligação do Itinerário secundário, até ao Eixo Norte-Sul.
     - Mas o quê? Esta estrada aqui, a caminho da minha casa? Foi o quê acidente?
     - Sim essa mesmo que vai aí ter, épa…não foi bem acidente, o carro estava intacto, fechado e com as chaves no assento do condutor, havia um circuito de sangue que vinha desde a frente do carro até ao que seria o corpo da Madalena.
     - O que seria? O que queres dizer com isso?
     - Não havia corpo, apenas terra dentro de uma camisa de noite branca, mas o sangue, era o da Madalena.
     - Camisa de noite branca? (interroga o Pedro)
     - Sim, uma camisa branca, e tinha também um medalhão no chão…
     - Desculpa lá César, mas…descreve-me lá fisicamente a Madalena, como é que ela era, cor de cabelo, essas coisas…
     - Era linda Pedro, linda, cabelos negros longos, com uns olhos claros, perfeita, tinha uma cara de anjo que nunca vou esquecer…
     - César… (gaguejou o jovem doutor…)
     - Que foi, o que é que se passa?
     - Eu acabei de dar boleia a uma miúda com essa descrição física, que encontrei especada na estrada…
     - Pedro, tu não saias daí, daqui a 10     minutos estou em tua casa, tu fecha-te na sala e deixa-te estar quieto, eu vou. Aí buscar-te, deixa-te estar quieto, pelo menos desta vez tu faz o que eu te digo… (e desliga o telefone)
    
 
     Pedro poisa o telefone, alucinado com toda esta história desce a escada e volta ao seu escritório, a porta estava agora fechada, com cuidado Pedro abre a porta… um ranger estranho faz arrepiar a sua pele e um apagar de luz faz estremecer o seu corpo…
 
 
     César apressa-se, pega no carro e acelera pelo meio da noite cerrada, estava nervosíssimo, e incrivelmente assustado, a cerca de 5 quilómetros da casa de Pedro as luzes do carro reflectem um corpo no meio da estrada, foi sem querer que César conseguiu vislumbrar o corpo, estava a tentar ligar para a policia quando olhou para a estrada e….travou a fundo.
 
     O jovem jornalista não conseguia ver muito bem quem era, mas resolveu ir ver o que se passava, saiu do carro, deu três passos em frente e viu….o seu amigo Pedro com uma batina branca e com um medalhão na mão…
     Sentiu um entorpecer no corpo, um enorme calafrio e caiu inanimado no chão.
 
publicado por JF às 20:43

12
Abr 06
Numa galeria, alguns estudantes junta-se.
 
- Bom dia, diz o mais novo dos jovens,
- Bom dia, responde o dono da galeria.
- Querem comprar alguma coisa? Pergunta de forma irónica o senhor.
- Bem, nem por isso, responde um dos jovens
- Nós somos alunos de pintura, e queríamos saber se podemos expor os nossos quadros por aqui. Sabemos que é uma galeria conceituada, e que estão abertos a propostas…
- Pois, só me dão é trabalho, comprar que é bom é mentira, vou buscar a agenda, esperem um pouco. Diz o velhote.
 
Entretanto curiosos deambulam pela sala,
 
- fodax 13 mil euros, um anel, grandas malucos, isto aqui é para ricos malta, diz um dos jovens.
 
-fala baixo, tas maluco, se o velho nos ouve não nos deixa por aqui nada.
 
Entretanto chega o dono…
 
- Oh jovens, nada de tocar nos vidros, e quero-vos longe desse anel,
- Então porquê? Podemos ver, quem sabe não o compramos, diz o mais gozam do grupo
- Esse anel não sai daí, com a história que isso tem… deixa sair o dono da galeria.
- História? Que história…já agora, queremos saber, diz o mais novo.
- Devia ter ficado calado, esta minha língua…
- Esse anel pertenceu ao principie da Roménia Carlos de Hohenzollern-Sigmaring, tem mais de dois séculos essa peça, dizem que está amaldiçoado, quem o põe no dedo fica só para sempre, esteve nas mãos do tão proclamado Drácula, dizem que todos os que privavam com ele morreram, até ficar só na sua transilvania.
- O Drácula? Aquele vampiro dos filmes? Fodax diz o mais novo,
- Olha a língua men, tas parvo,
- Peço desculpa, então mas ele não era o chefe dos vampiros, ou lá o que era?
- Isso são histórias de cinema, na vida real isso nunca aconteceu, vladimir, seu verdadeiro nome era um nobre, colecionava obras de arte, e era um boémio, creio que vivia mais de noite que te dia, talvez por isso se contem tantas histórias. Diz o velho.
- Então e o que aconteceu ao tal príncipe o tal Carlos qualquer coisa? Diz o terceiro membro do grupo.
- Bem desse ninguém sabe o paradeiro, todos os seus adjuntos no reino morreram de doenças incuráveis, e um dia o próprio Carlos de Hohenzollern-Sigmaring desapareceu, contam as lendas, e isto são só lendas que o anel foi encontrado sobre uma pedra com o nome dele gravado, e que havia sangue por todo o lado.
- Sim sim, já tou mesmo a ver, é uma maldição, morrem todos e não sei quê,  a única maldição que lhe noto é o preço, 13 mil euros…upa upa, diz um dos miúdos.
- sim é caro, mas é uma peça com várias décadas, e com a história que tem…merece bem o preço. Diz um dos amigos.
- bem jovens, é assim, esta exposição vai ficar até 5ª feira, tragam-me uns quadros vossos e depois vemos se vale a pena reservar a galeria para o vosso trabalho ok? Diz o dono.
- óptimo, nós trazemos umas fotos do que temos feito, de certo que vai gostar…
- então ficamos assim, passem por cá…
 
Na 4ª feira seguinte, ao encontram a porta da galeria semicerrada, um dos miúdos entra, encontra tudo fora do sitio…e uma pedra dentro de uma poça de sangue, ao lado desse cenário a redoma que guardava o tal anel… no chão mais ao lado, o mais novo dos estudantes encontra o anel, sem grande duvida enfia-o no dedo…
 
Vem cá fora chamar os amigos, mas eles simplesmente tinham desaparecido, um silêncio estranho embalava a cidade…nada parecia ter vida…
publicado por JF às 12:35

10
Abr 06
- Que trazes nessa caixa, pequena dama deslumbrante?
- Quem és tu? Perguntava ela,
- Sou um mero viajante,
- Que trazes nessa caixa, harmoniosa flor de encanto,
- São beijos senhor, são beijos, que te abraçam, que te acolhem no seu manto,
- Mas beijos? Dentro de uma caixa?
- São pequenos meu senhor, se tentar nem os acha,
- Então que trazes mais nessa caixa, linda donzela de pele rosada,
- É vontade senhor, é vontade de ser amada,
- Mas vontade minha bela, vontade não é fruto do desejo?
- Desejo senhor? Disso ñ tenho, aqui trago vontade e o beijo,
- E que mais trazes nessa caixa? Princesa de sonhos encantados?
- É paixão meu senhor, paixão para os enamorados,
- Mas que caixa tão estranha, mas tens tudo nesse cubo de papel?
- Tudo ñ meu senhor, apenas vontade, paixão, beijos e outras coisas k ñ se sentem pla pele
- Mais? E que mais, doce encanto, pedaço de silencio, grãozinho de paz
- Trago liberdade senhor, liberdade, ñ pra quem a prega, mas pra quem a faz,
- Trago o respeito, trago força, trago alegria e felicidade, tenho aqui a ilusão, do mais puro sonho, e o acordar na mais pura realidade….
- Trazes tanta coisa flor do mais maravilhoso dia,
- Trazes amor, trazes respeito, e também trazes alegria?
- Sim meu senhor, alegria tenho-a aqui dentro, trago a luz do dia, a mais pura fantasia, trago cada segundo, em momentos de ironia.
- Mas a ironia ñ é má, ñ se esquiva das verdades?
- Verdades senhor? As palavras não se esbatem em verdades ou mentiras, também trago ouro, prata e safiras.
- Mas que caixa maravilhosa, isso tem o mundo aí no interior?
- O mundo é demasiado grande para caber aqui dentro senhor,
- Mas conta-me, o que tens mais nessa caixa, sou hiper curioso,
- Trago justiça senhor, capaz de desmascarar o ser mais habilidoso,
- E o sonho? Pequena infanta de histórias de banda desenhada.
- O sonho é muito pouco senhor, o que quero é ser amada,
- Mas quem te deu essa caixa? Algum Deus? O teu Deus?
- Eu ñ tenho Deus senhor, estes são desejos meus,
- Como assim?
- Tenho desejos e guardo-os na minha caixa, que me acompanha a mim,
- Mas ñ tem um Deus, ñ acredita no Criador?
- Ñ senhor, nem sei quem é, ou qual o seu valor,
- Mas conta-me mais…que tens nessa caixa, minha personificação da liberdade,
- Trago muitas chaves meu senhor, chaves que te tiram da saudade,
- Transporto várias chaves que deixam portas abertas, que abrem as masmorras onde esconderam um dia os verdadeiros profetas,
- Mas como sabes tu tanto, minha sábia menina de cabelos dourados,
- Já vivi muito senhor, faço parte dos poucos que já foram verdadeiramente amados,
- Mas há pouco dizias que tinhas vontade de ser amada,
- Pois é, um dia já o fui…depois ficou o nada,
- Desilusões de amor, pequena beldade, ele ñ te merecia,
- Ñ diga isso senhor, se isso lhe acontecesse era isso que lhe diria, mas ñ por respeito, não para que fique com sua alma cristalina e serena, apenas porque quem já o sentiu…diz isso por mera pena.
 - Surpreendes-me, apaixonas-me com a tua sabedoria,
- Ñ é sabedoria senhor, é vontade de ser amada, como a mais linda alegoria,
- Mas és linda princesa de encanto, teus olhos azuis lembram o mar,
- Talvez senhor, talvez, mas ainda vou guardando desejos na caixa, até que alguém me queira amar.
- Como te chamas soberana? Deves ter nome de beldade,
- Chame-me do que quiser meu senhor, faça o que entender, isso é a liberdade.
 
            Sem saber bem porquê tive vontade de a abraçar, de a levar dali, sei lá, sonhei em décimas um sonho de eternidade, eu e ela lado a lado, e sem que percebesse bem porquê, dei-lhe um beijo pequeno e doce… em um segundo que fosse…
 
- Que faz meu senhor… pare por favor,
- Desculpa princesa…sonhei e deixei-me levar pelo meu sonho, perdoa.
- Não faz mal senhor, eu gostei, mas o meu coração tem medo que mais tarde doa,
- Tens medo que parta, que me vá, como já antes o fizera, é verdade, já o fiz,
- Sim senhor, tenho medo de me transformar, em mais um dos seus caprichos, eu já sofri porque quis,
- Desculpa, não queria, mas ñ tem nessa caixa, uma cura para o receio?
- Não meu senhor, ñ tenho curas, só quero ser amada, esse é meu anseio,
- Mas pedaço de céu, eu ñ te toquei por tocar, toquei com vontade de abraçar, e não beijei por beijar, fi-lo por te amar, à minha maneira é certo, apaixonei-me por tudo o que és, sem saber quem és, adoro-te por entender o que dizes, mesmo sem saber porque o dizes, e razões? Não as tenho pra te amar,
- Ai senhor, fico sem graça dessa maneira, vejo que é bem real o que disse, abra a minha caixa, algo me diz, que na minha história, eu vim aqui para lha entregar…
- Serenata luz da vida, será que devo? Tantos desejos, chaves, anseios, tudo o que de melhor tem o mundo está dentro desta caixa, e logo eu? Para a abrir? Mas a verdade é que és um quadro que quero colorir.
 
            E assim foi, peguei naquela pequena caixa de papel… e meio nervoso abri, abismado fiquei, com a irrealidade do que vi…
 
- Mas encanto…a caixa só tem um coração desenhado no fundo, não tem nada no seu interior.
- Senhor, veja bem, mas ñ com os olhos, porque tudo o que os olhos vêm nunca ficará perto do real valor…
 
            Sinceramente só via o pequeno coração desenhado no fundo da caixa de papel…mas estava incrivelmente feliz, e fechei os olhos…ñ poderia ter ideia mais brilhante, recebi o seu beijo….em um momento deslumbrante… e de repente tudo passou na minha frente, conceitos…sonhos, uns reais, outros meramente irreais..sei lá… o mundo.
 
- Meu amor, disse com uma voz calma, sentiste agora? Ñ procure à superfície, fecha os olhos e sente o que está lá no fundo.
- Fizeste-me feliz….obrigado minha pequena estrela cintilante,
- Eu agora sinto-me amada, isso é tão importante,
- Mas e tudo o que dizias ter dentro da caixa…que aconteceu?
- Eram desejos de paixão, meu único senhor, desejos que fizeste florir, em pequenas rosas, já olhas-te em tua volta? Tudo o que tinha na caixa desapareceu, agora temos uma caixa só nossa, por nós criada… eu agora ao teu lado, só me quero sentir amada… 
 
Parecia perfeito de mais o nosso amor, naquele jardim deslumbrante….
 
- Sabias que te amo, meu doce pecado?
- Creio que sim meu amo, sinto-me como se nunca tivesse errado,
- Errado? Como assim? A tua vida tem traços mal corridos?
- Sim, chorei pelos erros, pelas frustrações de quem perdi, são traços partidos,
- Nunca te imaginei dizeres algo assim, pensei que a tua vida fossem só rosas,
- Acha meu senhor? Nunca foi fácil viver, a vida é um ramo de flores, bem espinhosas.
- É bem capaz de o ser, mas é tão bom de se viver,
- É bom ganhar, mas e o que se sente ao perder?
- Bem minha doce encantada, quem perde é porque tentou,
- Não, quem perde é porque não foi capaz, e não ganhou,
- Não é pessimismo a mais minha linda, para uma jovem de pele rosada?
- Pessimismo ou optimismo? Pouco me importo, desde que desenhei a minha caixa o que quero é ser amada,
- Senti-te triste agora, pouco crente eu sei lá, a tua vida nem sempre foi contos de fadas…
- Não minha doce companhia, foram sempre viagem de longas caminhadas,
Encontrei gente má demais, que vence e vence constantemente, a ruindade é uma porta aberta, para muita dessa gente, e o mundo só anda em guerra meu amor, porque há muitos homens assim, onde a moral e os bons costumes são fachada, onde a hipocrisia é como o vento, sopra por todo o lado, enfim…
 
- Mas linda princesa de encantos tamanhos, essa gente vai ter o que merece…
- Nunca acredite em tal coisa meu amor, fique para ver, para ver o que acontece,
- Vamos fechar os olhos, dá-me a tua mão, vamos ver o passado, vais ver coisas que nunca pensas-te ser possível, ficarás destroçado.
- Por mim tudo bem, não me interessa ficar destroçado, importante é ficar do teu lado…
 
Foi então que se iniciou a viagem, a sua mão era a corrente para o sub mundo da verdade, onde os olhos não vêm, onde ninguém quer, e ninguém fica, onde ninguém acredita, vi a propagação duma peste chamada televisão, vi o sucumbir da autoridade, vi subir ao poder a maldade, olhei de perto crianças condenadas ao nascimento, condenadas porque são filhas do sofrimento, HIV vendido em pequenos sacos de rebuçados, a ingenuidade e a descrença continuavam abraçados, e faziam amor eloquente, contagiando-se constantemente, ganhando e perdendo, muita gente, que de olhos vendados continuava a ver e a acreditar que aquele vazio…era realidade.
 
            - É triste princesa, que tenhas de me mostrar o que sempre esteve na minha frente, é triste teres de partilhar tal conhecimento comigo, quem dera nunca to ter pedido...
            - Triste? Triste era nunca mostrar, amargo era ter de acreditar que no mundo não encontraria ninguém para apresentar, o que é a vida e o que é a morte, nos seus caminhos tortuosos
            - A vida e a morte? Mas agora confesso que tenho as ideias confusas, não faz tudo parte da mesma história, entre o que temos e o que perdemos por querer ou sem querer, entre o sol nascer, e a ferida que faz doer?
            - Não meu amo, nunca será assim, essa história nem tem fim,
            - Então o que é a vida…e a morte?
            - A vida? É o amor, aquele aperto forte no peito, a ilusão que te estreito, e que tudo vai durar para sempre,
            - A morte, é a falta disso mesmo, quando nos sentamos no nosso canto abandonados, e recordamos a porta errada que abrimos, e que nos levou a esse canto, meio perdidos, meio esquecidos e completamente sozinhos…
publicado por JF às 13:45

08
Abr 06
Era uma vez uma criança, fechada em quatro paredes brancas, apenas com uma única janela, do outro lado, do lado de lá, o mundo girava, o dia nascia, a lua surgia, o vento corria, a chuva caía e os dias passavam, calmamente e no ritmo calmo de horas por findar; as quatro paredes pareciam ser suficientes para a felicidade dessa criança, dali não saía, dali observava seguro o mundo, a janela mostrava em breves “flashs” o que era o mundo, eram as paredes que lhe davam amor, que lhe transmitiam segurança, que lhe davam esperança, de um dia as poder colorir, com mil cores de um arco-íris surreal criado pela mente de alguém que via o mundo, mas…não o conhecia.
Um dia algo mudou, o vento foi mais forte e de repente a janela entreaberta, abriu por completo, a criança assustada sentiu o vento pela primeira vez bater no seu rosto, e gostou, e foi meio apavorado que tomou a decisão de sentir como era o mundo que a janela lhe mostrava, quis saber e assim foi, ultrapassou a ultima barreira do tempo e do espaço, saiu pela janela e foi lá para fora, com medo, mas com um sorriso que parecia ser de consolação, felicidade pura, aventura.
Percorreu o mundo, conheceu os mais belos campos, as mais lindas flores, viu os mais lindos quadros que só um momento único é capaz de pintar, sentiu o mundo, era feliz…sentiu a chuva no seu rosto e…sentiu o amor; quando o encontrou, sentiu o mais puro sentimento que alguma vez teria sentido, o único sentimento que nos cega, e que não nos perturba, o facto de não conseguirmos ver. Apaixonou-se, enfeitiçou-se, parecia que tudo fazia sentido, sorrir fazia sentido, sonhar fazia sentido, tudo era lindo e o que não era…parecia, tudo era perfeito até um dia acordar…e sentir-se sozinho, o seu amor tinha desaparecido, fora-se embora, ele ficou esquecido, era agora um homem triste que aprendera o que é a dor da pior forma, que aprendera o que era a solidão da única maneira possível, que se sentia pela primeira vez desde há muito…perdido, sozinho.
Triste e só observou o mundo, o mesmo mundo que o encantou era agora triste, amargo, rude, a felicidade deu lugar ao espanto e o arco-íris de mil cores aos seus olhos era a preto e branco, e o mundo já não fazia sentido, sorrir não fazia sentido, respirar não fazia sentido, sonhar…nunca mais faria sentido, era apenas mais uma criança que cresceu…e estava sozinha, neste mundo que nem sempre tem o céu azul, mas não propriamente porque não tem essa cor, apenas porque aos nossos olhos esse céu azul…é apenas um supérfluo cinzento!
Foi então entre mil e um gestos sem esperança que recordou com saudade, as quatro paredes brancas e a sua janela, indiscreta, que compreendia agora que apenas o protegia do quão doce e amarga pode ser a vida.
Decidiu voltar, percorrer tudo de novo, voltar para o seu “ninho”, aí seria feliz novamente, ele tinha a certeza, e mais uma vez o sorriso surgiu nos seus lábios, o acreditar fazia novamente sentido, a esperança tinha agora objectivo, o que parecia esquecido…era agora o que pensava ser a salvação.
Percorreu cada palmo de terra, superou o vento, o sol, a chuva, a ingratidão e a maldade dos que lhe atravessaram o caminho, e foi então por fim, que observou à distancia…o seu lugar, cansado ajoelhou-se e chorou, lágrimas de dor e felicidade e de muitas outras coisas às quais ainda não demos um nome, mas sabemos que existem, porque as sentimos.
 Era novamente feliz, e sem mais esperar, levantou-se e foi em frente, mas…mais perto, surgiu novamente o golpe, o mesmo vento que um dia lhe deu a oportunidade de sair, tinha-lhe tirado agora o ensejo de voltar, a janela estava fechada, e a felicidade mais uma vez…gorou-se em lágrimas perdidas de uma criança que tinha crescido.
Ficou para sempre junto da janela, na esperança de um dia voltar a entrar, mas isso nunca aconteceu, os segundos deram lugar às horas, e as horas foram contado as suas memórias, no doce e pesado esgueirar do tempo.
Um dia alguém passou e perguntou…”Quem és tu meu velho?” E a “criança” agora com poucos momentos de vida respondeu: “sou alguém que um dia teve tudo, e que quis mais, quis conhecer o mundo e conheceu, que um dia foi curioso e descobriu o amor, e que agora dava tudo para nunca o ter conhecido, que agora dava tudo para nunca ter saído” A pessoa extremamente curiosa e admirada na presença de tanto conhecimento perguntara então “e que gosto tem o amor?” e o velho responde…”o amor? O amor é doce como a vida…e amargo como a morte…”
 
publicado por JF às 13:38

07
Abr 06
Cruzam-se as mãos, trocam o abraço que no linear deixa antever que se vai partir, e que a única coisa que vai ficar para sempre é algo que muitos teimam em chamar de saudade, a verdade é que saudade é aquele aperto que pouco mais faz do que criar a vontade de saciar, de voltar a ter aquilo pelo qual sentimos…saudade.


     A sensação era um pouco mais forte, de perda talvez, os olhos puxados deixavam criar algumas lágrimas que nunca chegaram a cair, talvez porque o sorriso e a calma das palavras que diziam até breve as guardou.


     Foi então com um ultimo beijo que se despediram Gabriel e Ariana, um beijo curto, solto e célere, não havia porquê continuar a prolongar aquele momento, que para ambos era mais de dor, do que de amor.


     Com o voltar das costas sente-se então aquele vazio, que embora saibamos que se vai sentir, é sempre mais forte, e nos faz tremer por dentro. Nenhum ousa olhar para trás, e seguem caminhos divergentes.


     Gabriel chegou a casa triste, desiludido com tudo o que tinha feito, e que tinha…perdido. Olhou no espelho os seus olhos castanhos cor de mel reflectidos e embebidos em lágrimas, só lhe mostravam dor, pesar, e uma fragilidade imensa, baixou a cabeça, abriu a segunda gaveta de uma velha cómoda de família e foi sem surpresa que reservou a sua sorte a uma bala certeira, que o fez cair sobre as recordações do que tinha vivido, foi um último sorriso e tudo o resto foi sangue, e lágrimas.


     Algum tempo antes, cerca de quatro meses antes, Ariana e Gabriel tinham-se conhecido, num daqueles quadros difíceis de vislumbrar, um por do sol, uma caminhada e de repente cruzam-se olhares, efémeros os primeiros, mas voltaram a insistir, e da segunda vez que se olharam, trocaram algo que os marcou para sempre.


     Ariana a mais desinibida dera então o primeiro passo, deu-se a conhecer, falou, falou, e continuou a falar, de si, das coisas que gostava, e de tudo o resto, Gabriel por seu lado, introvertido por natureza, deixava-se embalar pela voz melodiosa e doce daquela pequena feiticeira que acabava de lhe tirar o sono, a fome e todas as outras vontades que não fossem estar com ela.


     Do mutuo conhecimento ás juras de amor foi mais um mero capitulo, quando encantados tudo se passa depressa, e mesmo assim, sente-se como se de uma eternidade de tratasse.


     O primeiro beijo, os primeiros segredos, os primeiros arrepios na pele, esses foram tão céleres quanto as juras de amor, e como se de uma droga se tratasse, ao fim de poucos dias ambos estavam condenados, a uma existência subjugada à presença do outro, ingénuos novamente, sonhadores que sonhavam que a realidade os ligaria para sempre. Todas as histórias de amor são assim, inesquecíveis no início, tudo o que se diz fica gravado como chapa, esculpido como prata, e é doce como a mais melosa iguaria.


     Foram quatro semanas e meia de olhares concentrados, sorrisos desmacarados e sinceridade, sem surpresa numa noite, em que decidiram voltar ao lugar onde se tinham apaixonado pela primeira vez, aconteceu mais do que o beijo, as mãos trémulas tactearam a pele, os arrepios sucumbiam nos corpos, trespassavam dos corpos, e os olhos tinham dificuldade em fixar o que quer que fosse, vidrado no que estava a acontecer Gabriel não sabia mais o significado de nada, as palavras não lhe faziam sentido, apenas sabia que era forte, e que certamente seria para sempre, Ariana por sua vez era um poço de energia, os seus poros sugavam todo o calor dos corpos, e de sua boca saiam os restos que não conseguia conservar, fazia lembrar o Inverno, quando bafejamos o ar com uma tempera de ar concentrado.


     As suas mãos circulavam nos corpos, e agarravam a pele, deixando antever o grito que acabaria mais tarde ou mais cedo por surgir. Cansados, deitaram-se na areia e olharam a imensidão do céu, não que ainda quisessem ver alguma coisa, aliás duvido que fossem capazes de ver o que quer que seja, adormeceram então colados um no outro, aninhados no que foram os restos do seu amor, os corpos.


     Gabriel acordou sobressaltado com a onda que o veio acordar, um verdadeiro gelo que o fez de imediato lembrar que a noite não tinha sido um sonho, deu um beijo em Ariana e acordou-a com carinho, temos de ir dizia, daqui a pouco isto fica inundado de gente. E assim foi, levantaram os corpos doridos e maltratados do amor, passaram as mãos pela água salgada e molharam os rostos, ainda cansados, mas felizes.


     A semana seguinte foi como uma ressaca, não se viram durante essas cento e sessenta e oito horas, talvez porque há sempre um período de luto após a primeira vez, esse período reserva interrogações, sensações, e uma psicologia inata que tenta definir tudo em palavras.


     Ultrapassada essa metamorfose Gabriel quis ver de novo a sua estrela, e procurou-a onde saberia que mais tarde ou mais cedo a iria encontrar, não foi preciso esperar tanto quanto isso, lá estava ela, linda como sempre, de cabelos soltos ao vento e com aquele jeito simples de ser especial. No entanto Gabriel não a foi abraçar de imediato, ficou sentado junto ao parapeito da escadaria que dava acesso à praia. Ariana estava acompanhada e parecia argumentar com alguém, os gestos impulsivos deixavam a antever um desentendimento, uma discussão. O jovem que a acompanhava era uma cara nova para Gabriel, e aqueles olhos azuis nunca tinham sido vistos por ali.


     Gabriel descobrira então naquele momento que pouco sabia do quotidiano de Ariana, não lhe conhecia os amigos, nem tão pouco a família mais chegada, no entanto as interrogações não demoraram muito tempo, o tal jovem de olhos azuis tinha-se levantado e ido embora, deixando no banco de pedra um lugar pronto a ser ocupado por aquele pequeno indeciso e apaixonado que jurava não aguentar mais as saudades da boca que o fez esquecer o mundo.  


Trocaram um abraço forte, um beijo sedoso e demorado, como é bom ver-te de novo disse Ariana, curioso Gabriel não podia deixar de saber quem era aquele rapaz, porém a resposta foi curta e amarga, um amigo, que encontrei por aqui. O tempo era pouco para as palavras, a sede de lábios de suas bocas era interminável, e nem respirar parecia fazer sentido.


     Sensivelmente um mês mais tarde Ariana chegou com as lágrimas nos olhos, tremiam suas mãos, e as palavras saíam aos solavancos, tenho algo teu aqui dentro disse ela, estou grávida. Gabriel via o chão ganhar forma de abismo e a sua cor mudou para algo muito parecido com uma folha de papel. Não conseguia reagir a nada, as palavras não saíam, só pensava na loucura que seria ter de enfrentar um pai autoritário que tinha posto sua irmã fora de casa por uma história muito parecida.


     - O que é que vamos fazer, deixou fugir o alucinado Gabriel, 


- Não sei, os meus pais não podem saber, vão me matar, a mim e a ti quando souberem disto, soluçava Ariana.


Abraçaram-se mais uma vez, deixaram as suas lágrimas dançarem ao som do cair da chuva, era um sinal que nenhum deles tinha nenhuma forma de reparar a situação, a força de outros tempos parecia ser agora mera cinza, pronta a ser soprada pelo vento.


Mais tarde Ariana tinha traçado o caminho, esse trilho separava as duas almas, ela tinha definido rumar a outro país, onde a esperava sua prima mais velha e confidente das horas difíceis, não queria ajuda de ninguém, muito menos de Gabriel, que via aquela ideia como uma tábua de salvação no principio.


A despedida foi tremendamente frustrante, e Ariana seguiu o seu caminho, apanhou o avião e só conseguiu parar de chorar quando adormeceu.


Nunca mais teve notícias de Gabriel e meses depois nascia um pequeno rebento, de pele macia, e com pulmões poderosos, pela força do grito.


- Olhem só que rico menino, dizia a prima de Ariana


- E que olhos azuis enormes…


- Realmente é um lindo menino, e quanto aos olhos…sai ao pai, murmurou Ariana.
publicado por JF às 00:35

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