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Abr 06
Era uma vez uma criança, fechada em quatro paredes brancas, apenas com uma única janela, do outro lado, do lado de lá, o mundo girava, o dia nascia, a lua surgia, o vento corria, a chuva caía e os dias passavam, calmamente e no ritmo calmo de horas por findar; as quatro paredes pareciam ser suficientes para a felicidade dessa criança, dali não saía, dali observava seguro o mundo, a janela mostrava em breves “flashs” o que era o mundo, eram as paredes que lhe davam amor, que lhe transmitiam segurança, que lhe davam esperança, de um dia as poder colorir, com mil cores de um arco-íris surreal criado pela mente de alguém que via o mundo, mas…não o conhecia.
Um dia algo mudou, o vento foi mais forte e de repente a janela entreaberta, abriu por completo, a criança assustada sentiu o vento pela primeira vez bater no seu rosto, e gostou, e foi meio apavorado que tomou a decisão de sentir como era o mundo que a janela lhe mostrava, quis saber e assim foi, ultrapassou a ultima barreira do tempo e do espaço, saiu pela janela e foi lá para fora, com medo, mas com um sorriso que parecia ser de consolação, felicidade pura, aventura.
Percorreu o mundo, conheceu os mais belos campos, as mais lindas flores, viu os mais lindos quadros que só um momento único é capaz de pintar, sentiu o mundo, era feliz…sentiu a chuva no seu rosto e…sentiu o amor; quando o encontrou, sentiu o mais puro sentimento que alguma vez teria sentido, o único sentimento que nos cega, e que não nos perturba, o facto de não conseguirmos ver. Apaixonou-se, enfeitiçou-se, parecia que tudo fazia sentido, sorrir fazia sentido, sonhar fazia sentido, tudo era lindo e o que não era…parecia, tudo era perfeito até um dia acordar…e sentir-se sozinho, o seu amor tinha desaparecido, fora-se embora, ele ficou esquecido, era agora um homem triste que aprendera o que é a dor da pior forma, que aprendera o que era a solidão da única maneira possível, que se sentia pela primeira vez desde há muito…perdido, sozinho.
Triste e só observou o mundo, o mesmo mundo que o encantou era agora triste, amargo, rude, a felicidade deu lugar ao espanto e o arco-íris de mil cores aos seus olhos era a preto e branco, e o mundo já não fazia sentido, sorrir não fazia sentido, respirar não fazia sentido, sonhar…nunca mais faria sentido, era apenas mais uma criança que cresceu…e estava sozinha, neste mundo que nem sempre tem o céu azul, mas não propriamente porque não tem essa cor, apenas porque aos nossos olhos esse céu azul…é apenas um supérfluo cinzento!
Foi então entre mil e um gestos sem esperança que recordou com saudade, as quatro paredes brancas e a sua janela, indiscreta, que compreendia agora que apenas o protegia do quão doce e amarga pode ser a vida.
Decidiu voltar, percorrer tudo de novo, voltar para o seu “ninho”, aí seria feliz novamente, ele tinha a certeza, e mais uma vez o sorriso surgiu nos seus lábios, o acreditar fazia novamente sentido, a esperança tinha agora objectivo, o que parecia esquecido…era agora o que pensava ser a salvação.
Percorreu cada palmo de terra, superou o vento, o sol, a chuva, a ingratidão e a maldade dos que lhe atravessaram o caminho, e foi então por fim, que observou à distancia…o seu lugar, cansado ajoelhou-se e chorou, lágrimas de dor e felicidade e de muitas outras coisas às quais ainda não demos um nome, mas sabemos que existem, porque as sentimos.
 Era novamente feliz, e sem mais esperar, levantou-se e foi em frente, mas…mais perto, surgiu novamente o golpe, o mesmo vento que um dia lhe deu a oportunidade de sair, tinha-lhe tirado agora o ensejo de voltar, a janela estava fechada, e a felicidade mais uma vez…gorou-se em lágrimas perdidas de uma criança que tinha crescido.
Ficou para sempre junto da janela, na esperança de um dia voltar a entrar, mas isso nunca aconteceu, os segundos deram lugar às horas, e as horas foram contado as suas memórias, no doce e pesado esgueirar do tempo.
Um dia alguém passou e perguntou…”Quem és tu meu velho?” E a “criança” agora com poucos momentos de vida respondeu: “sou alguém que um dia teve tudo, e que quis mais, quis conhecer o mundo e conheceu, que um dia foi curioso e descobriu o amor, e que agora dava tudo para nunca o ter conhecido, que agora dava tudo para nunca ter saído” A pessoa extremamente curiosa e admirada na presença de tanto conhecimento perguntara então “e que gosto tem o amor?” e o velho responde…”o amor? O amor é doce como a vida…e amargo como a morte…”
 
publicado por JF às 13:38

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