03
Jun 06
- Cala-te tontinho, sabes que te adoro... (murmurou Anya)
- Nunca vais fugir daqui? Perguntou meloso Daniel,
- E deixar-te aí nessa cidade? Livre e solto ao alcance de qualquer uma, nunca (dando-lhe um beijo terno na testa).

O relógio na mesa-de-cabeceira marcava 10 horas, e a musica tinha sido calada bruscamente pela mão de Anya.
A vontade de sair daquela cama não era das maiores, o sol atravessava ao de leve a janela semiaberta, deixando com ele entrar também uma brisa, que arrepiava os corpos. Anya acabava de se cobrir com os lençóis quando Daniel interrompe a sua preguiça…

- Hoje não entravas mais cedo no hospital? Pergunta Daniel
- Hum…deixa-me dormir mais um bocado, cinco minutos, vão ser só cinco minutos…e cai no sono Anya.

Daniel levantou-se cautelosamente para não perturbar o ultimo aconchego da sua mais que tudo, desceu as escadas, abriu o frigorifico, pegou na sua água, bebeu um gole, e encaminhou-se para a janela… do lado de lá, ia observando as crianças a brincar, num jardim…o seu ar, despreocupado com a vida, a forma como não tinham medo de nada, via as mães babadas cegas de amor pelos seus rebentos, que sorriam só porque sim, em cada gesto, em cada brincadeira mais ingénua…Daniel deixou escapar um sorriso e voltou a por a água no frigorifico.
Ao fechar a porta um estrondo vinha do seu quarto, uma espécie de vidro a partir, algo imperceptível que o levou a correr lá a cima…
Ao chegar Anya não se encontrava na cama, viu a casa de banho…nada, Daniel era agora uma espécie de barata tonta perdida numa caixa de fósforos, a sensação que tinha perdido algo, e que tinha acontecido qualquer coisa era agora perturbadora, a sua cabeça entrara nas mil ideias por segundo.
Mais um som estranho vinha da sua sala, um vidro a partir pareceu-lhe…correu para baixo e viu uns vidros no chão…a sua manhã tinha começado com adrenalina a mais, Daniel começava a perder o controlo da situação e do seu corpo que começara a tremer compulsivamente. Lá de fora não vinha som algum, os miúdos pareciam ter desaparecido, o mundo mudou rápido de mais, quando por detrás do seu corpo surge um vulto que lhe venda os olhos com as suas mãos…

- Andas à minha procura? (deixou fugir com um riso)

Era Anya, com o seu jeito doce de ser imprevisível, e perfeita nestes momentos mais perdidos de Daniel.

- O que é que se passou lá em cima? Pensei que tinha acontecido alguma coisa, subi e não te vi na cama, comecei a ficar ansioso…diz ainda não muito recomposto Daniel.
- Foi o candeeiro que caiu, mas não te preocupes que o levei logo para o escritório, depois trato disso.
- E aqui em baixo? O que é que partiste? (diz com um tom irónico Daniel)
- Aqui não parti nada, foram uns miúdos que atiraram uma bola contra a porta…nada de mais.


Daniel teve então tempo para descansar a mente, e abraçá-la, deu-lhe um beijo e disse-lhe no ouvido…

- Estou a ficar maluco, acho que não consigo viver sem ti…
- Achas?! Ai não tens a certeza é? Pois eu digo-te, não consegues, não sabes, nem tal vai acontecer ok? Tolinho.

Os dias seguintes foram pequenas réplicas desse mesmo dia, a cama, os abraços…a amanhecer apaixonado de sempre, o cheiro dos corpos no nascer dos novos dias.

Vivíamos problemas graves a nível estrutural da sociedade, mas não apenas neste pequeno país à beira mar plantado, o mundo andava louco, a falta de petróleo assolava os países que outrora foram ricos e que agora estavam prestes a apanhar o comboio de todos os outros, o comboio de destino ao terceiro mundo.
As ruas estreitas das cidades mostravam o quão cinzento estava este novo século, sem abrigo lutavam por um espaço mais perto das pontes, e nas caras das gentes pouco mais existia do que o lamento…a dor.
Daniel e Anya eram privilegiados de uma sociedade afundada, Anya era enfermeira num dos hospitais que ainda funcionava e Daniel era fotografo de um jornal, que muito embora pouco pagasse, tinha em grande consideração e estima aquele jovem, que aproveitava todos os momentos para pegar na sua objectiva, e imortalizar os momentos.

As fronteiras dos países europeus tinham-se fechado, a peste assolava a Europa de leste, e o HIV já tinha morto metade da população africana e sul americana, em Portugal o clima era de alguma consternação, no entanto o povo continuava nas ruas, com força para lutar, as crianças brincavam nos jardins, as bandeiras bailavam nas janelas.
As noticias de Domingo à noite mudaram tudo, estávamos em alerta vermelho, uma nova doença tinha penetrado os corpos dos nossos, um vírus poderoso propagava-se pelo sangue, e o contagio era fácil de mais, devido às condições precárias em que o povo vivia.


- Não voltas para aquele hospital, amanhã não vais trabalhar, ordenou preocupado Daniel.
- E achas que se ficarmos aqui fechados nesta casa fugimos dos problemas, podemos fazer com que esperem, mas estarão ali, ao cruzar a porta. Esta é a minha profissão, eu ajudo pessoas, e não vou agora ficar fechada em casa porque uma merda de uma notícia te deixou com medo. (respondeu irritada Anya)
- Isto ainda vai dar mau resultado, amanha vão cair milhares de pessoas no teu hospital, podes perfeitamente apanhar aquela coisa.
- eu sei tomar conta de mim…

A noite foi fria, para ambos, de costas voltadas na cama, Daniel passara a noite em branco, de olhos abertos via as horas passar, do extremo oposto, Anya fazia exactamente a mesma coisa, sem nunca darem o braço a torcer viram assim passar, o que fora uma das suas ultimas noites…

Daniel acabou por adormecer e quando abriu os olhos Anya já tinha saído, levantou-se, desceu as escadas, e um papel colado na porta do frigorífico fez apagar a réstia de raiva que ainda guardara da noite anterior…

“ Amo-te, não te vou deixar sozinho, eu volto, prometo”

Os seus olhos embargados em lágrimas fecharam-se, encostou a cabeça ao frigorífico e beijou o papel que continha aquela mensagem, de certa maneira ele acreditava, mas algo mais foste do que o crer, fazia sentir que algo não estava bem.

Mais tarde, Anya voltava a casa como prometido, deu um beijo a Daniel, mas seus olhos deixaram fugir que algo não estava bem…

- O que se passou? Não faças muitos rodeios e diz logo! (disse Daniel incomodado com aquele olhar triste)
- Tinhas razão…
- No quê?
- O vírus é a sério, e está a atingir grandes proporções
- Eu disse-te, eu sabia, porque é que nunca ouves o que digo? Ao menos despediste-te?
- Não
- Mas amanhã não vais…eu não te deixo sair daqui, nem que te feche aqui dentro (disse agarrando a mão de Anya o sufocado Daniel).
- Tenho de ir…já descobriram a cura!
- Ao menos isso, até é de estranhar o país resolver a situação tão rápido. Qual é a cura?
- A cura está no sangue, é a junção de uma pequena vitamina com o sangue (O-)
- Isso não é o teu tipo de sangue?
- É
- Não me digas que vais ter de dar sangue ainda por cima, tens de ir lá amanha?
- O meu tipo de sangue é raro, é o tipo (O) é o único que pode ser introduzido nos outros, e apenas o (O-) é que serve como cura, em junção com a vitamina.
- E vão tirar muito?
- Todo!

Gera-se uns segundos de silencio, as mãos de Anya frias deixavam-se acarinhar pelas de Daniel, por sua vez o fotografo tinha falhado o enquadramento, não percebia o que Anya lhe dizia…

- Mas espera aí, todo como?
- Todo, só existe uma centena de pessoas com o meu tipo de sangue, e as fronteiras estão fechadas, não podemos pedir ajuda a ninguém. Vamos ser sacrificados.
- Vais passar os dias no hospital a tirar sangue é isso? Mas já estão assim tantas pessoas infectadas?
- Três milhões de pessoas, e vou sucumbir à primeira hora que me tirarem sangue.
- Sucumbir?
- Vão tirar-nos o sangue todo, só assim podemos tratar das pessoas já infectadas e ficar com alguns antídotos em banco.

Daniel estava meio pasmo com a história, e não se tinha apercebido da gravidade da situação, não entendia, nem queria entender o que Anya queria dizer…

- Preciso de beber água, ainda não entendi nada disto…

Levantou-se, foi até ao seu frigorífico, pegou na garrafa e deu um gole…enquanto isso olhou para o papel que ainda estava na porta.

“ Amo-te, não te vou deixar sozinho, eu volto, prometo”

Guardou de novo a água, fechou a porta, Anya levantou-se e veio ao encontro de Daniel, olharam nos olhos um do outro, ficaram quietos por momentos…até que Daniel percebeu por fim, abraçaram-se, e entre choro e arrependimentos ajoelham-se no chão…

- Não pode ser, tem de haver outra maneira, não deixo, não deixo que eles te levem…
- Tem de ser, é a única maneira, ou mais tarde morrerás também, tu e todos, alguém tem de ser sacrificado.
- E tinhas de ser tu?
- Não sou só eu, e eu não escolhi.
- Tu prometes-te que não me deixavas…tu prometes-te.
- E não deixo, vou estar sempre contigo, quando respirares, quando sentires o sol a entrar na nossa janela, quando sentires o frio, quando sentires que estás…vivo.

Os momentos seguintes foram de autentico terror, pânico, desconforto, uma mistura estranha de sensações também elas extremas, por um lado Anya não parecia querer mudar de ideias, estava disposta a tudo, para salvar gente que nem conhecia, por outro Daniel, por ele podiam morrer todos até ele próprio, mas a sua Anya…

- Por favor não a leves… Ela não, não pode ser… (dizia agarrado a uma pequena cruz)

A noite chegou, e as ultimas horas foram o que se pode chamar a despedida, choravam enquanto se beijavam, sofriam enquanto se tocavam, e um simples “Amo-te” era doloroso como mil lâminas a trespassar o corpo, os gritos e gemidos eram de prazer, de dor, de sensações melindrosas, entre lume e queixume, entre o céu e o inferno, entre a vida e a morte.

Com o nascer do dia Daniel acerca-se da janela, de onde vê partir Anya num carro negro, tinham-na ido buscar a casa, creio que fizeram exactamente o mesmo com os outros dadores compatíveis. A última imagem é a de um beijo, entre janelas, entre a janela de sua casa e a janela que se fechava como sinal de adeus, do carro.

Daniel saiu de casa, sentou-se no banco de jardim, e daí observou novamente as crianças, ingénuas no seu posto, nada lhes impõe tristeza, nem preocupação, tudo é…perfeito.
Foi então a ver os sorrisos daqueles pequenos seres que Daniel entendeu o porquê…entendeu que tinha de ser assim, e que Anya apenas fez o seu papel, como única que sempre foi, salvou quem tinha de salvar. (uma lágrima e depois um sorriso final)

A porta do frigorifico abre-se, uma garrafa é colocada no seu interior, vê-se a porta a fechar e uma fotografia dos dois, com o recado por baixo.

“ Amo-te, não te vou deixar sozinho, eu volto, prometo”

(a vida é apenas um momento, em que unimos as coisas que vamos guardando, vamos ser sempre dois, eu e tu, vou lembrar-me sempre de ti quando respirar, quando sentir o sol entrar na nossa janela, quando sentir o frio, e a dor, quando sentir que estou vivo… vamos ser sempre dois, eu e tu)
publicado por JF às 23:45

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