07
Abr 06
Cruzam-se as mãos, trocam o abraço que no linear deixa antever que se vai partir, e que a única coisa que vai ficar para sempre é algo que muitos teimam em chamar de saudade, a verdade é que saudade é aquele aperto que pouco mais faz do que criar a vontade de saciar, de voltar a ter aquilo pelo qual sentimos…saudade.


     A sensação era um pouco mais forte, de perda talvez, os olhos puxados deixavam criar algumas lágrimas que nunca chegaram a cair, talvez porque o sorriso e a calma das palavras que diziam até breve as guardou.


     Foi então com um ultimo beijo que se despediram Gabriel e Ariana, um beijo curto, solto e célere, não havia porquê continuar a prolongar aquele momento, que para ambos era mais de dor, do que de amor.


     Com o voltar das costas sente-se então aquele vazio, que embora saibamos que se vai sentir, é sempre mais forte, e nos faz tremer por dentro. Nenhum ousa olhar para trás, e seguem caminhos divergentes.


     Gabriel chegou a casa triste, desiludido com tudo o que tinha feito, e que tinha…perdido. Olhou no espelho os seus olhos castanhos cor de mel reflectidos e embebidos em lágrimas, só lhe mostravam dor, pesar, e uma fragilidade imensa, baixou a cabeça, abriu a segunda gaveta de uma velha cómoda de família e foi sem surpresa que reservou a sua sorte a uma bala certeira, que o fez cair sobre as recordações do que tinha vivido, foi um último sorriso e tudo o resto foi sangue, e lágrimas.


     Algum tempo antes, cerca de quatro meses antes, Ariana e Gabriel tinham-se conhecido, num daqueles quadros difíceis de vislumbrar, um por do sol, uma caminhada e de repente cruzam-se olhares, efémeros os primeiros, mas voltaram a insistir, e da segunda vez que se olharam, trocaram algo que os marcou para sempre.


     Ariana a mais desinibida dera então o primeiro passo, deu-se a conhecer, falou, falou, e continuou a falar, de si, das coisas que gostava, e de tudo o resto, Gabriel por seu lado, introvertido por natureza, deixava-se embalar pela voz melodiosa e doce daquela pequena feiticeira que acabava de lhe tirar o sono, a fome e todas as outras vontades que não fossem estar com ela.


     Do mutuo conhecimento ás juras de amor foi mais um mero capitulo, quando encantados tudo se passa depressa, e mesmo assim, sente-se como se de uma eternidade de tratasse.


     O primeiro beijo, os primeiros segredos, os primeiros arrepios na pele, esses foram tão céleres quanto as juras de amor, e como se de uma droga se tratasse, ao fim de poucos dias ambos estavam condenados, a uma existência subjugada à presença do outro, ingénuos novamente, sonhadores que sonhavam que a realidade os ligaria para sempre. Todas as histórias de amor são assim, inesquecíveis no início, tudo o que se diz fica gravado como chapa, esculpido como prata, e é doce como a mais melosa iguaria.


     Foram quatro semanas e meia de olhares concentrados, sorrisos desmacarados e sinceridade, sem surpresa numa noite, em que decidiram voltar ao lugar onde se tinham apaixonado pela primeira vez, aconteceu mais do que o beijo, as mãos trémulas tactearam a pele, os arrepios sucumbiam nos corpos, trespassavam dos corpos, e os olhos tinham dificuldade em fixar o que quer que fosse, vidrado no que estava a acontecer Gabriel não sabia mais o significado de nada, as palavras não lhe faziam sentido, apenas sabia que era forte, e que certamente seria para sempre, Ariana por sua vez era um poço de energia, os seus poros sugavam todo o calor dos corpos, e de sua boca saiam os restos que não conseguia conservar, fazia lembrar o Inverno, quando bafejamos o ar com uma tempera de ar concentrado.


     As suas mãos circulavam nos corpos, e agarravam a pele, deixando antever o grito que acabaria mais tarde ou mais cedo por surgir. Cansados, deitaram-se na areia e olharam a imensidão do céu, não que ainda quisessem ver alguma coisa, aliás duvido que fossem capazes de ver o que quer que seja, adormeceram então colados um no outro, aninhados no que foram os restos do seu amor, os corpos.


     Gabriel acordou sobressaltado com a onda que o veio acordar, um verdadeiro gelo que o fez de imediato lembrar que a noite não tinha sido um sonho, deu um beijo em Ariana e acordou-a com carinho, temos de ir dizia, daqui a pouco isto fica inundado de gente. E assim foi, levantaram os corpos doridos e maltratados do amor, passaram as mãos pela água salgada e molharam os rostos, ainda cansados, mas felizes.


     A semana seguinte foi como uma ressaca, não se viram durante essas cento e sessenta e oito horas, talvez porque há sempre um período de luto após a primeira vez, esse período reserva interrogações, sensações, e uma psicologia inata que tenta definir tudo em palavras.


     Ultrapassada essa metamorfose Gabriel quis ver de novo a sua estrela, e procurou-a onde saberia que mais tarde ou mais cedo a iria encontrar, não foi preciso esperar tanto quanto isso, lá estava ela, linda como sempre, de cabelos soltos ao vento e com aquele jeito simples de ser especial. No entanto Gabriel não a foi abraçar de imediato, ficou sentado junto ao parapeito da escadaria que dava acesso à praia. Ariana estava acompanhada e parecia argumentar com alguém, os gestos impulsivos deixavam a antever um desentendimento, uma discussão. O jovem que a acompanhava era uma cara nova para Gabriel, e aqueles olhos azuis nunca tinham sido vistos por ali.


     Gabriel descobrira então naquele momento que pouco sabia do quotidiano de Ariana, não lhe conhecia os amigos, nem tão pouco a família mais chegada, no entanto as interrogações não demoraram muito tempo, o tal jovem de olhos azuis tinha-se levantado e ido embora, deixando no banco de pedra um lugar pronto a ser ocupado por aquele pequeno indeciso e apaixonado que jurava não aguentar mais as saudades da boca que o fez esquecer o mundo.  


Trocaram um abraço forte, um beijo sedoso e demorado, como é bom ver-te de novo disse Ariana, curioso Gabriel não podia deixar de saber quem era aquele rapaz, porém a resposta foi curta e amarga, um amigo, que encontrei por aqui. O tempo era pouco para as palavras, a sede de lábios de suas bocas era interminável, e nem respirar parecia fazer sentido.


     Sensivelmente um mês mais tarde Ariana chegou com as lágrimas nos olhos, tremiam suas mãos, e as palavras saíam aos solavancos, tenho algo teu aqui dentro disse ela, estou grávida. Gabriel via o chão ganhar forma de abismo e a sua cor mudou para algo muito parecido com uma folha de papel. Não conseguia reagir a nada, as palavras não saíam, só pensava na loucura que seria ter de enfrentar um pai autoritário que tinha posto sua irmã fora de casa por uma história muito parecida.


     - O que é que vamos fazer, deixou fugir o alucinado Gabriel, 


- Não sei, os meus pais não podem saber, vão me matar, a mim e a ti quando souberem disto, soluçava Ariana.


Abraçaram-se mais uma vez, deixaram as suas lágrimas dançarem ao som do cair da chuva, era um sinal que nenhum deles tinha nenhuma forma de reparar a situação, a força de outros tempos parecia ser agora mera cinza, pronta a ser soprada pelo vento.


Mais tarde Ariana tinha traçado o caminho, esse trilho separava as duas almas, ela tinha definido rumar a outro país, onde a esperava sua prima mais velha e confidente das horas difíceis, não queria ajuda de ninguém, muito menos de Gabriel, que via aquela ideia como uma tábua de salvação no principio.


A despedida foi tremendamente frustrante, e Ariana seguiu o seu caminho, apanhou o avião e só conseguiu parar de chorar quando adormeceu.


Nunca mais teve notícias de Gabriel e meses depois nascia um pequeno rebento, de pele macia, e com pulmões poderosos, pela força do grito.


- Olhem só que rico menino, dizia a prima de Ariana


- E que olhos azuis enormes…


- Realmente é um lindo menino, e quanto aos olhos…sai ao pai, murmurou Ariana.
publicado por JF às 00:35

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